Sexta, 08 de setembro de 2017, 15h23

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Papa na Missa em Villavicencio:
“sim” à reconciliação, incluindo a natureza

O Papa Francisco iniciou o seu terceiro dia na Colômbia em Villavicencio, onde celebrou a Missa da memória litúrgica da Natividade da Virgem Maria, com a beatificação de Dom Jesús Emilio Jaramillo Monsalve, bispo de Arauca, e do sacerdote diocesano Padre Pedro María Ramírez Ramos.

Na homilia, Francisco começou por reafirmar que Maria é o primeiro esplendor que anuncia o fim da noite e, sobretudo, a proximidade do dia e que o seu nascimento nos faz intuir a iniciativa amorosa, terna e compassiva do amor com que Deus Se inclina sobre nós e nos chama para uma aliança maravilhosa com Ele, que nada e ninguém poderá romper. E acrescentou:

“Maria soube ser transparência da luz de Deus e reflectiu os fulgores desta luz na sua casa, que partilhou com José e Jesus, e também no seu povo, na sua nação e na casa comum de toda a humanidade que é a criação”.

Comentando a genealogia de Jesus narrada no Evangelho, o Papa sublinhou que não se trata de uma mera lista de nomes, mas de história viva, a história dum povo com o qual Deus caminhou e, ao fazer-Se um de nós, quis anunciar que, no seu sangue, corre a história de justos e pecadores, que a nossa salvação não é uma salvação asséptica, de laboratório, mas concreta, de vida que caminha:

“Esta longa lista diz-nos que somos uma pequena parte duma longa história e ajuda-nos a não pretender protagonismos excessivos, ajuda-nos a fugir da tentação de espiritualismos evasivos, a não abstrair das coordenadas históricas concretas em que nos cabe viver. E também integra, na nossa história de salvação, aquelas páginas mais obscuras ou tristes, os momentos de desolação e abandono comparáveis ao exílio”.

A menção das mulheres na genealogia – observou o Papa – diz-nos que são elas que anunciam que, pelas veias de Jesus, corre sangue pagão, que recordam histórias de marginalização e sujeição. Em comunidades onde ainda se arrastam estilos patriarcais e machistas, é bom anunciar que o Evangelho começa por salientar mulheres que criaram tendência e fizeram história – disse Francisco, ressaltando o lugar privilegiado de Jesus, Maria e José na história:

“Maria, com o seu «sim» generoso, permitiu que Deus cuidasse desta história. José, homem justo, não deixou que o orgulho, as paixões e os ciúmes o lançassem fora desta luz (…) e hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José apresenta-se como figura de homem respeitoso, delicado que, mesmo não dispondo de todas as informações, se decide pela honra, dignidade e vida de Maria”.

Em seguida Francisco falou da Colômbia como povo de Deus, pois também aqui – disse - podemos fazer genealogias cheias de histórias: muitas, cheias de amor e de luz; outras, de conflitos, ofensas, inclusive de morte. E o Papa recordou as várias experiências de exílio e desolação, das muitas mulheres que, em silêncio, perseveraram sozinhas e dos numerosos homens de bem que procuraram pôr de lado amarguras e rancores, querendo combinar justiça e bondade. Que fazer, então, para deixar entrar a luz e quais são os caminhos de reconciliação, se perguntou Francisco:

“Como Maria, dizer «sim» à história completa, e não apenas a uma parte; como José, pôr de lado paixões e orgulho; como Jesus Cristo, cuidar, assumir, abraçar esta história, porque nela vos encontrais vós, todos os colombianos, nela está aquilo que somos... e o que Deus pode fazer connosco se dissermos «sim» à verdade, à bondade, à reconciliação. E isto só é possível, se enchermos com a luz do Evangelho as nossas histórias de pecado, violência e conflito”.

Reconciliar-se é abrir uma porta a todas e cada uma das pessoas que viveram a realidade dramática do conflito, disse ainda Francisco, reiterando que quando as vítimas vencem a tentação compreensível da vingança, elas se tornam nos protagonistas mais credíveis dos processos de construção da paz. É preciso que alguns tenham a coragem de dar o primeiro passo nesta direcção, sem esperar que o façam os outros; basta uma pessoa boa, para que haja esperança, e cada um de nós pode ser esta pessoa – rematou o Papa.

Isto, porém, não significa ignorar ou dissimular as diferenças e os conflitos, advertiu o Santo Padre, não se trata de legitimar as injustiças pessoais ou estruturais, porque o recurso à reconciliação não pode servir para se acomodar em situações de injustiça.

“Pelo contrário, [a reconciliação] «é um encontro entre irmãos dispostos a vencer a tentação do egoísmo e a renunciar aos intentos duma pseudo-justiça; é fruto de sentimentos fortes, nobres e generosos, que levam a estabelecer uma convivência fundada sobre o respeito de cada indivíduo e dos valores próprios de cada sociedade civil»”

A reconciliação, portanto, concretiza-se e consolida-se com a contribuição de todos, permite construir o futuro e faz crescer a esperança, insistiu o Papa, e qualquer esforço de paz sem um compromisso sincero de reconciliação será um fracasso.

No texto do Evangelho, Jesus é chamado o Emanuel, o Deus connosco, e em S. Mateus Jesus promete «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos». Esta promessa, disse o Papa a terminar, realiza-se também na Colômbia porque o Bispo D. Jesús Emilio Jaramillo Monsalve e o sacerdote Pedro Maria Ramírez Ramos, mártir de Armero, são sinal e expressão dum povo que quer sair do pântano da violência e do rancor.

Cabe a nós dizer «sim» à reconciliação e, neste «sim», incluamos também a natureza; cabe-nos dizer «sim» como Maria e cantar com Ela as «maravilhas do Senhor», porque Ele ajuda a todos os povos e a cada povo, ajuda a Colômbia que hoje quer reconciliar-se e à sua descendência para sempre – concluiu Francisco. (BS)

(from Vatican Radio)

   
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